Vida dupla – o eu dividido (Parte II)

Há algum tempo,  escrevi uma mensagem com o título: Em cima do muro é um péssimo lugar para estar. E pior do que ficar em cima do muro sem saber para que lado pular, ou sem querer escolher de que lado ficar  – é viver uma vida dupla.

E como mostra o vídeo na mensagem anterior, tem cristão que sofre de dupla personalidade, dentro da igreja, seja qual for, ou praticando qualquer atividade que supostamente se relaciona ao evangelho, é uma pessoa, mas fora das quatro linhas,  muda de direção.

Por quê?

Porque o coração tá dividido entre o ser e o ter.

Porque não temos convicção da nossa identidade em Deus, sendo assim, não conseguimos nos reconhecer filhos de um Deus que ama, acolhe, ajuda, corrige, consola e que é único.

Porque não vivemos em Jesus, mas vivemos para dizer coisas, fazer coisas, participar de alguma coisa, seguir rituais, tradições e regras humanas ditadas por  instituições religiosas.

Porque  vivemos como se o sacrifício  de Jesus na cruz fosse o fim e não o começo de um caminhar com Ele e Nele.

Porque não compreendemos que Jesus é amigo – “…Já não os chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu os tenho chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu lhes tornei conhecido….” (Jo 15:15); e amigo de verdade sabe de tudo do outro, aceita o outro como ele é, amigo tá sempre junto. Diante de uma amigo verdadeiro não precisamos fingir que somos o que não somos, né mesmo?

Porque é difícil e quase impossível para nós crermos que os pensamentos de Deus Pai são maiores e melhores dos que os nossos, crer no que o apóstolo Paulo diz I Co2:9 (essa é apóstolo de verdade) “…Todavia, como está escrito: “Olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou o que Deus preparou para aqueles que o amam.”

Porque estamos divididos entre natureza humana e espírito. A nossa carne nunca quer o que o Espírito de Deus quer, e Paulo de novo alerta na carta aos Gálatas 5: “…Por isso digo: Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne. Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o outro, de modo que vocês não fazem o que desejam…”

Por que mantemos vida dupla? Porque é mais fácil…levar em frente o auto-engano de ter tudo no controle de nossas frágeis mãos. Não queremos abrir mão de sermos “senhores de nós mesmos”, apesar de nossos lábios dizerem que Jesus é o nosso Senhor e que vivemos por Ele (ao invés de vivermos Nele), preferimos lutar com as nossas próprias forças, mantendo um estilo de vida voltado para a segurança, prazer e poder e aos domingos vestimos o traje sacerdotal, para na segunda-feira voltarmos a vestir nossas roupas impregnadas de nossa vontade própria.

E assim vamos deixando a vida nos levar e a cada dia ficamos mais distantes da rendição total ao Senhor Jesus. Mantemos uma aparente submissão a Ele, aparente sim…porque nossos corações não querem se render, nossos lábios dizem palavras de ordem (porque esse “evangeliquês” universal já se transformou em palavras de ordem, cada duas palavras vem um “aleluia seguido de um amém), nossos lábios recitam versículos e mais versículos, tudo em nome de Jesus, é claro…mas continuamos a manter os nossos corações longe Dele, pensando diferente Dele e agindo na contramão do que Ele, Jesus, O Senhor e Deus nosso Pai, nos quer ensinar e assim fingindo submissão ao Seu Senhorio, o tempo todo.

Brennan Manning, escreve em seu livro Convite à loucura, no subtítulo O “eu” dividido”: “…um estilo de vida centrado em segurança, prazer e poder impede a possibilidade de estabelecer qualquer sentido coerente do “eu” pela simples razão de que tais desejos excluem Deus de forma peremptória (definitiva)…   “O fracasso ou a recusa de residir na mente de Cristo cria dualidade e separação dentro de nós. Não escolhemos com determinação entre Deus e Mamom, e nosso adiamento já constitui, em si, uma decisão. Nós nos dividimos cuidadosamente entre carne e Espírito com os olhos atentos em ambos. A relutância em admitir com toda a consciência que somos filhos de Deus causa esquizofrenia espiritual do tipo mais aterrador…Os cristãos falam muitas vezes da necessidade de submissão a Deus. Mas há uma diferença essencial entre submissão e rendição. A primeira é a aceitação consciente da realidade. Há uma rendição superficial, mas a tensão continua.  Digo que aceito quem sou, mas não aceito tão completamente que esteja disposto a realmente demonstrar como sou. Trata-se de uma aceitação indolente, que pode ser descrita por palavras como resignação, complacência, reconhecimento, concessão…Em contrapartida, a rendição é o momento quando as minhas forças de resistência param de agir, quando não posso fazer mais nada exceto responder ao chamado do Espírito. “O estado emocional de rendição”, escreve o dr. Harry S. Tiebout, “é um estado no qual existe uma persistente capacidade para aceitar a realidade. É um estado realmente positivo e criativo”… (se quiser leia o livro uma excelente e edificante leitura para os que querem realmente buscar ter a mente de Cristo)

Não admitindo abrir mão do controle sobre a nossa vida, seguimos nos apegando ao frenesi de fazer coisas, participar de eventos, reuniões de oração, freqüentando lugares onde Deus supostamente é celebrado e adorado e nos escondendo atrás de uma caridade “capenga” de ajudar aos necessitados sem oferecer a ajuda mais necessária – a proclamação do evangelho de nosso Senhor Jesus. E vamos nos esquecendo das suas verdadeiras palavras no evangelho de Marcos 8:35-36:  “…_Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará… Pois, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?…”

É mais fácil ser dois em um, no cotidiano em meio ao nosso trabalho, em casa, no casamento, com os amigos, com os vizinhos,  somos uma pessoa, rimos, brigamos, contamos piada, etc.. e no domingo assumimos por algumas horas “a pessoa” que se diz cristã fazendo coisas, dizendo coisas, participando de alguma coisa dentro das instituições que se intitulam igrejas. E depois esvaziados de Deus por fazer tantas coisas, dizer outras tantas coisas, participar de tantos eventos, percebemos que continuamos vazios, vazios de Deus, percebemos que não conseguimos preencher o vazio de nossas almas, percebemos que continua faltando algo, mas não admitimos que “esse algo” é viver Neles no Pai e no Filho e sem admitir, mesmo percebendo, continuamos a nossa pobre e vazia vidinha dupla até o próximo domingo, até o próximo encontro religioso ou reunião de oração.

Muitas vezes penso que a gente pensa que Deus é bobo, que Ele não vê o nosso coração…a gente se esquece que nada está oculto Dele, diz lá no livro de Hebreus:_Nada, em toda a criação, está oculto aos olhos de Deus. Tudo está descoberto e exposto diante dos olhos daquele a quem havemos de prestar contas.

E também em 1 Sm.16:7  “…porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração.” Então não dá para achar que podemos uma ou duas vezes por semana, ou até mais, assumir uma “vida cristã” e no restante dos dias assumir o “outro” que mora dentro de nós e mergulhados nas coisas terrenas viver como “agentes secretos do Reino”.

Já é tempo de compreendermos que o Reino de Deus está dentro de nós, que Jesus vive dentro de nós, e para poder ouvir e praticar aquilo que Ele nós vem ensinando há 2000 anos (ainda bem que Ele é paciente rsrsrs) é necessário desacelerar dessa correria toda e abrir os nossos ouvidos à voz de Deus. Não dá para fazer as duas coisas, apesar de ter gente que acredita conseguir.

Contemplar a Deus, ouvir a voz do seu Espírito com a mente voltada e cheia de assuntos terrenos é impossível. Paulo diz em Colossenses 3: “…Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas…”  e Tiago, o meio irmão de Jesus, diz no capítulo 1:17 e 3:17: _ Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, que não muda como sombras inconstantes… Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera.

Se simplesmente nos satisfizermos com recitar versos, cantar músicas praticar atividades religiosas variadas, vestindo a roupagem de “cristão” somente uma ou algumas vezes por semana, sem buscar ter a mente do Senhor Jesus, pensando como Ele, tentando agir como Ele, renovando as nossas mentes, sem nos conformar com este mundo, então….desculpe a franqueza continuaremos sendo fingidos, sabe por que?

Porque Jesus quer ir mais além, Ele quer o nosso “eu” mais profundo, quer que avancemos trocando o “leite espiritual” do inicio por alimento sólido ao caminhar com Ele em intimidade na jornada do Reino. Jesus quer que fiquemos ligados Nele e rendidos a Ele reconheçamos que sem Ele não podemos nada. Ele busca em nós sinceridade...Jesus quer que se veja somente a Ele quando olharem pra nós…

Jesus quer o nosso amadurecimento  espiritual, Ele quer o nosso verdadeiro “eu” sincero que sejamos com Ele e na presença Dele o que realmente somos. Quer que saiamos da superfície e mergulhemos na profundidade do Ser Dele, Jesus quer que nos tornemos um com Ele, sem as hipocrisias da religiosidade que nos impede de termos um só coração, um só pensamento e um só agir com Ele.

Saia da superfície da religiosidade e hipocrisia, mergulhe para poder conhecer e compreender todo esse amor, em toda a sua largura, altura, comprimento e profundidade…

Abraço e obrigado a todos que leram até aqui…e encerro com essa prece em forma de poesia de Fernando Pessoa – O Eu profundo” – por todos nós Nele!

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte!

O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu!

Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também.

Onde nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo) – eis o teu corpo. 

Dá-me alma para te servir e alma para te amar.

Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome. 

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos.

Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama.

Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar. 

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te. 

Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu.

Senhor, livra-me de mim. Fernando Pessoa

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